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Segunda-feira, 21 de janeiro de 2008 |
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| Folha de S. Paulo |
| Estudo vê empresas preparadas contra crise |
| Cristiane Barbieri - da Reportagem Local |
As empresas brasileiras de capital aberto estão preparadas para enfrentar o impacto de possível crise econômica nos Estados Unidos. É o que mostra pesquisa realizada pela Fundap (Fundação do Desenvolvimento Administrativo do Estado de São Paulo), feita com base em balanços de empresas listadas em Bolsa. Segundo o estudo, que abrangeu o período de 2002 a 2007, essas companhias atravessam o melhor momento de suas histórias. Numa primeira fase, a pesquisa anual avaliou o desempenho de 201 companhias que divulgam balanços trimestrais e que, juntas, faturaram o equivalente a meio PIB brasileiro. Foi comparado seu desempenho nos primeiros nove meses no ano passado contra o mesmo período de 2006. Além dos já esperados aumentos de vendas e lucratividade, de 19% e 22,4%, respectivamente, no período, a Fundap constatou que as empresas têm hoje baixíssimo endividamento e aumentaram seus ativos permanentes, em média, em 29%. Entre os ativos permanentes, estão bens como imóveis e equipamentos, que indicam investimentos feitos em aumento de produção. "Isso significa que elas estão prontas para um novo ciclo de crescimento", diz Geraldo Biasoto Júnior, diretor-executivo da Fundap. "Ter rentabilidade maior é magnífico, mas, para as empresas, ter mais ativos sem aumento expressivo do endividamento é mais importante." A pesquisa encontra eco entre as empresas. Para José Carlos Grubisich, presidente da Braskem, as empresas brasileiras estão prontas para atravessar eventuais turbulências em 2008. "Tanto do ponto de vista macroeconômico como do microeconômico -das empresas que estão com dívidas alongadas, capitalizadas e investindo-, estamos preparados", diz Grubisich. "Se houver um impacto mais forte e houver retração no consumo, ele será sentido apenas a partir de 2009."
Investir em tijolos A pesquisa da Fundap, que analisou os dados setorialmente e também entre empresas produtoras de bens negociáveis e não-negóciáveis (que podem ou não ser exportados), mostrou, por exemplo, que na área de construção civil os ativos permanentes aumentaram 129% no período analisado. São construtoras e incorporadoras comprando terrenos e fazendo imóveis para vender. A Company é um exemplo desse movimento. Em 2004, a construtora lançou R$ 250 milhões em imóveis novos, sendo que as instituições financeiras ficaram com R$ 92 milhões desse total. No ano passado, foi R$ 1,5 bilhão em lançamentos, porém a empresa ficou com R$ 920 milhões do total. "Multiplicamos por dez nossa capacidade de investimento", afirma Luiz Rogelio Pelosa, diretor financeiro da Company. Segundo ele, entre 1984 e 2006, a construtora ergueu 8.500 habitações em São Paulo. Em 2007, foram 10 mil unidades. "Em um ano e meio, fizemos mais do que em 24 anos de existência", diz Pelosa. A pesquisa indicou também que, mesmo em áreas nas quais a acumulação de ativos permanentes não é o fator mais relevante para o crescimento do negócio, houve alta expressiva nesse tipo de bem. No comércio, o ativo circulante (o dinheiro em caixa) é mais importante que o permanente. Mesmo assim, o incremento do permanente foi de 78%. "Tínhamos planos de abrir 30 lojas em 2007 e abrimos 32", diz Cláudio Ely, presidente da Drogasil. "Em 2008, nossa meta é ainda mais agressiva." A perspectiva, de acordo com ele, acontece porque dados como o aumento de renda e o envelhecimento da população indicam crescimento no longo prazo. "O mercado de capitais não tem ido tão bem porque os investidores estão assustados com a turbulência nos EUA", diz Ely. "Mas, por enquanto, 2008 deve ser um ano de crescimento." É exatamente o mercado interno que deve ainda ajudar as empresas brasileiras a atravessar o futuro turbulento. Por equivaler a 60% do PIB, aponta o estudo da Fundap, o consumo interno foi determinante no crescimento econômico. Até setembro de 2007, o consumo das famílias teve alta de 5,9%, contra os 4,6% de 2006. "A queda nos juros, o crescimento do crédito e o aumento no emprego e na renda foram e serão determinantes para o crescimento do mercado interno", diz Biasoto. Depois de investir R$ 1,4 bilhão no aumento de 60% em sua capacidade de papel e cartão, a Klabin irá, em 2008, aplicar numa área que atende basicamente a esse mercado interno. Serão R$ 200 milhões, gastos na linha de sacos industriais, usados pela indústria de materiais de construção. "O mercado interno está aquecido, porém no nosso setor exportações são muito importantes", diz Miguel Sampol, diretor-geral da Klabin. "Com o real valorizado, perdemos muito em competitividade."
Câmbio Apesar de muitas exportadoras terem sentido o efeito cambial, o estudo da Fundap mostra que a queda do dólar ajudou as empresas de capital aberto a reduzir seu endividamento. As despesas financeiras caíram, em média, 74,4%. Tal índice só foi alcançado porque as dívidas em dólar diminuíram, em razão da queda da moeda americana, e resultaram em maior rentabilidade. Porém, dizem os empresários, feitas as contas entre redução de dívidas em dólar, aplicações das antecipações dos contratos de câmbio e perdas de mercado em razão de importações, a queda da moeda dos EUA tem trazido mais prejuízo do que benefício. "Temos a sorte de trabalhar num segmento dolarizado, mas nossos clientes que vendem em reais perdem mercado", diz Grubisich. Mesmo nas dívidas em real, no entanto, o perfil do endividamento das empresas melhorou, já que as de curto prazo foram trocadas pelas de longo prazo. "O grande senão desse quadro será um possível aumento no custo da energia nos próximos anos", afirma Biasoto.
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