Segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
           
  

Época
"Desta vez, o ajuste veio para ficar"
José Fucs

Paulo Rabello de Castro
ENTREVISTA
 

QUEM É
Nos anos 70, fez pós-graduação e doutorado em Economia pela Universidade de Chicago. Foi aluno do economista Milton Friedman (1912-2006)

O QUE FAZ
É diretor da RC Consultores e presidente da SR Rating (classificadora de risco). Ex-professor de Economia da FGV-Rio. De 1979 a 1994, dirigiu a revista Conjuntura Econômica

O QUE PUBLICOU
É autor dos livros A Evolução do Capitalismo no Brasil e Este País Tem Jeito?



O economista Paulo Rabello de Castro, de 57 anos, diz que o Brasil não vai escapar ileso da crise internacional. Formado na Escola de Chicago, reduto do liberalismo americano, ele afirma também que a crise não vai durar apenas uns poucos dias, como aconteceu no ano passado. “Desta vez, parece que o ajuste vem para ficar?, diz. “Na hora em que os analistas mais respeitados começam a repetir ‘temos um problema’, ele costuma ficar até maior do que é, ao menos durante algum tempo.?

ÉPOCAComo o senhor vê a atual instabilidade das Bolsas?
Paulo Rabello de Castro
– É um pouco cara-de-pau eu dizer que isso já era esperado. Mas o fato é esse. No início de dezembro, fiz uma palestra com outros consultores econômicos e disse que o ano de 2008 vai ser muito difícil. O problema americano hoje não é só relacionado ao crédito imobiliário concedido para pessoas de menor poder aquisitivo, algumas delas imigrantes ilegais, que têm empregos mais precários. Envolve toda a capacidade de pagar do cidadão americano, principalmente nas camadas menos favorecidas. E já deixou de ser restrito ao crédito pessoal. Tornou-se um problema de crédito entre instituições financeiras. Desde setembro, há uma retração no crédito interbancário, realizado entre instituições financeiras internacionais.

ÉPOCA A queda das Bolsas de Valores assusta, não?
Castro
– O que mais cresce num momento de euforia e o que mais decresce num momento de desânimo do mercado são os preços dos ativos, das ações até os imóveis. No mercado imobiliário americano, a queda média dos preços deve estar entre 15% e 20%. Não é brincadeira, porque os imóveis são usados como garantias de crédito. Isso afeta todo o sistema financeiro. Esse ajuste leva tempo e, enquanto ele está ocorrendo, ninguém se aventura a comprar mais ativos.

ÉPOCAQuanto tempo isso vai durar?
Castro
– Certamente, não será questão de uns poucos dias. Desde o ano passado, o mercado vem ensaiando um ajuste. Por mais de uma vez, em 2007, o mercado deu um susto de alguns dias e depois voltou com uma euforia tão grande quanto antes da queda. Desta vez, parece um ajuste que vem para ficar. Primeiro, porque isso está combinado em Wall Street. Nesse mercado instantâneo, em que as informações circulam globalmente em tempo real, praticamente se combina qual será a convicção corrente. Em que deus nós estamos acreditando? Normalmente, é no deus da alta. Mas, quando o mercado combina que é no deus da baixa, a tendência passa a ser de baixa. Na hora em que os analistas mais respeitados começam a dizer “temos um problema?, ele costuma ficar até maior do que é, ao menos durante algum tempo.

ÉPOCA A crise nos bancos internacionais vai provocar um grande aperto no crédito?
Castro
– Sem dúvida. Quando a dificuldade de uma instituição financeira é reconhecida nos balanços, como está acontecendo agora, ela fica um pouco mais grave. Às vezes, um círculo restrito, que pode incluir o classificador de risco, toma conhecimento de que determinada instituição está tendo um problema, mas fala disso com muita delicadeza, tal como em casos de câncer. Agora, vivemos uma fase em que a delicadeza foi posta de lado e os bancos têm de mostrar claramente o tamanho do problema. Alguns precisaram até correr atrás de investidores para se capitalizar. Então, essas instituições vão adotar critérios muito mais rigorosos de concessão de crédito. Na hora em que a roda da riqueza econômica rodar, vai rodar mais devagar. Dizem que a locomotiva agora é a China, mas vamos combinar o seguinte: os Estados Unidos ainda são a maior potência econômica do planeta. Se a roda econômica dos Estados Unidos rodar mais devagar, todo mundo vai rodar mais devagar.

ÉPOCAQual é o efeito que a crise deve ter no fluxo de capital externo para o Brasil?
Castro
– O Brasil é visto hoje como um risco cada vez mais interessante. Nós reclamamos muito da política brasileira. Mas, se olharmos para o país com os olhos dos investidores estrangeiros, que querem saber da segurança jurídica, de entrar com seu dinheiro aqui e depois sair sem ser incomodados, há praticamente certeza de que nada vai sair errado.

ÉPOCAO Brasil não tem de resolver a questão fiscal, fazer a reforma tributária?
Castro
– Ainda falta muita coisa. Para começar, o Brasil precisa melhorar o campo fiscal. Depois, precisa de planejamento econômico mesmo, estratégia de longo prazo, que não tem. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é meramente uma lista de obras a fazer. Não é plano econômico, nem representa um comprometimento do governo com uma estratégia de longo prazo. Ainda assim, apesar de tudo o que falta, afirmo: há 30 anos o Brasil não apresenta um quadro tão favorável.

Se obtivéssemos o grau de investimento, o dólar poderia ir para R$ 1,40, R$ 1,30. Isso é mais um problema que uma solução


ÉPOCAO governo Lula está indo bem?
Castro
– Até agora eu não posso avaliar a competência do governo Lula. O que eu consigo avaliar é sua sorte. Vai ter sorte assim no raio que o parta. Agora, se o governo está usando bem essa sorte, não sei. Ele está agindo como o sujeito que acabou de ganhar na Mega Sena e não convocou os amigos todos para uma grande festa, para acabar com o dinheiro numa noite só. Foi prudente, mas eu até agora não sei como é que vai dar um salto extraordinário.

ÉPOCANo fim de 2007, acreditava-se que o Brasil pudesse obter o tão esperado grau de investimento das agências de classificação de risco (espécie de um boletim de bom comportamento financeiro) neste ano. Isso ainda é possível?
Castro
– Acho que a obtenção do grau de investimento vai depender muito mais da avaliação do comportamento financeiro interno que da crise internacional. A nossa dívida pública interna ainda é rolada em situações de semi-estresse, por causa da taxa de juro alta. Quando o próprio governo precisa pagar um juro alto para rolar sua dívida, não demonstra tanta segurança assim. País de moeda forte, país investment grade, tem taxa de juro moderada. Se o Brasil quiser receber o investment grade, a taxa de juros tem de mostrar que o país está estabilizado e com as contas públicas em ordem. Isso exigiria um passo que o atual governo reluta em dar, que é cortar gastos públicos.

ÉPOCAQual é a importância do grau de investimento para o país?
Castro
– O Brasil não precisa de grau de investimento para resolver sua vida. Esse é um mito criado pela mídia. Abre algumas portas. Mas as portas já estão se abrindo. A grande animação em torno do grau de investimento é porque seria um sinal verde para o ingresso de recursos de aplicadores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras. Mas, Deus do céu, se sem esses novos fundos nós já temos problemas com o excesso de recursos externos, que jogam a cotação do dólar para baixo e prejudicam as exportações, para onde vai o dólar se mais uma montanha de dinheiro entrar aqui? Se obtivéssemos o grau de investimento, o dólar poderia ir para R$ 1,40, R$ 1,30. Isso na realidade é mais um problema que uma solução. O que o Brasil tem de fazer é tomar as medidas necessárias para que a taxa de juros caia sem grandes riscos inflacionários. Na hora em que fizermos o dever de casa, o investment grade já chegou. O aluno que estudou não fica preocupado em tirar 10. O 10 chega sozinho. O investment grade é apenas o início de um processo para se tornar um bom aluno.