Sábado, 5 de abril de 2008
           
  

O Estado de S. Paulo
'É uma palhaçada o que fazem com a gente'
Da Redação

Longas filas, falta de informação e muitas queixas. Esse era o clima ontem à tarde no terminal de cargas do Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos.

Por causa da paralisação dos auditores fiscais da Receita Federal, que já dura 19 dias, caminhoneiros se aglomeravam em intermináveis filas, com períodos de espera de até um dia (ou mais) para conseguir esvaziar as carrocerias de seus veículos.

"Já tentei descarregar ontem (anteontem) e não consegui", disse o motorista Gilmar Grigorio. Na quinta-feira, ele permaneceu com seu caminhão estacionado nas imediações do aeroporto durante toda a tarde. Sem nenhuma previsão de horário para desembarcar os componentes eletrônicos que levava no baú, ele decidiu ir embora e tentar a sorte novamente ontem.

Quando conversou com a reportagem do Estado, porém, por volta de 16h30 de ontem, Grigorio já completava mais dez horas de espera. Como é também o dono do caminhão que dirige, ele contou que a greve dos auditores acabará lhe causando prejuízos. "Se você considerar que só a diária do meu caminhão custa R$ 400 e que estou parado aqui há dois dias, dá para imaginar o quanto estou perdendo", afirmou. "É uma palhaçada o que fazem com a gente."

Como a fila dos caminhões que chegavam a Cumbica já começava a obstruir o tráfego na via em frente aos terminais, funcionários do aeroporto tiveram de recorrer a um plano de emergência. Em um espaço que pertencia à Transbrasil, empresa aérea que deixou de operar no fim de 2001, improvisaram um pátio de estacionamento.

Sair da fila e ir para o pátio, porém, não representava nenhuma garantia de que a liberação poderia ser agilizada. O motorista Mario Lopes aguardava no local desde a manhã de ontem e se queixava das condições ruins a que estavam submetidos os caminhoneiros no local. "O único banheiro que tem aqui não funciona. Além disso, não temos água nem comida", queixou-se. Ao lado, um colega completou: "Se você quiser comer alguma coisa lá dentro (no aeroporto), acaba gastando muito".

Se não fosse possível fazer o descarregamento ainda na tarde de ontem, os caminhões que já haviam entrado no pátio ficariam retidos no local até segunda-feira. Com seus veículos presos no aeroporto, os motoristas precisariam se desdobrar para conseguir voltar para casa. "Eu ligo para a transportadora, peço um táxi... Tem de dar um jeito", disse Francisco Fiuza, na fila desde a manhã de ontem.

Além da espera, os caminhoneiros ainda se queixavam da falta de informação. Muitos, até, falavam com ironia da paralisação dos servidores. "Ah, essa é a desculpa de agora. A situação está ruim desde o fim do ano passado, mas cada hora surge uma justificativa", contou Lopes.

O que todos diziam, porém, é que, por causa da redução das atividades de liberação para embarque, as cargas estavam se acumulando no depósito da Infraero. Sem espaço nos galpões, a prioridade era dada apenas às chamadas "cargas molhadas", perecíveis, como alimentos.

O caminhoneiro Sandro Almeida, no entanto, desmente o critério de prioridade. Visivelmente abatido, aguardando por uma liberação desde terça-feira, ele contou que no baú de seu caminhão havia uma encomenda de carne bovina que já deveria ter seguido para Caracas, na Venezuela.