|
|
|
Quarta-feira, 14 de maio de 2008 |
|
 |
 |
 |
 |
 |
| Valor Econômico |
| Do sucesso à complacência |
| Edward Amadeo |
A época de ouro da última década resultou do bem-sucedido esforço para criar um ambiente propício ao investimento e à eficiência. As décadas anteriores foram marcadas pela crise inflacionária, seguidas de penoso ajuste, com juros e desemprego elevados. Na América Latina, a crise da dívida e a hiperinflação foram a expressão do desajuste daquele período.
O recente boom tem bons fundamentos: redução das barreiras ao comércio internacional, avanços tecnológicos, desenvolvimento dos mercados de capitais e melhora da política econômica.
Mas, como em outros ciclos de crédito, a bonança trouxe consigo certa dose de irracionalidade: a euforia hilariante das bolhas se transforma em depressão coletiva quando elas estouram.
Não é só isso: o bom ambiente que resultou dos esforços reformistas também produziu o relaxamento das boas práticas. É bem conhecida a advertência de Alan Greenspan, ainda presidente do Federal Reserve, em 2006, de que a sensação de estabilidade econômica e financeira estava fazendo os investidores cobrarem barato pelo risco que compravam.
Bem como a estabilidade dos anos 90 e 2000 ensejou um excesso de otimismo quanto à capacidade dos bancos centrais evitarem que a inflação saia do controle e, ao mesmo tempo, sejam capazes de manter a economia próxima do pleno emprego.
Como também a segurança oferecida pela supervisão dos bancos fez os reguladores fecharem os olhos para as atividades de outros intermediários que hoje estão no centro da crise financeira dos EUA.
A estabilidade e a exuberância levaram ao excessivo endividamento dos consumidores anglo-saxônicos e à desmesurada exposição ao risco de alguns agentes financeiros. Agora, os primeiros precisam voltar a poupar e os segundos a recompor seus balanços antes da vida voltar ao normal. O mundo passará por uma nova fase de reformas antes de um novo ciclo de expansão.
A tese da "maldição das commodities" é exatamente que o dinheiro fácil do aumento dos preços termina por minar a gestão pública
Quando parecia que o mundo tinha chegado ao ápice do conhecimento sobre regulação dos mercados; quando os bancos centrais atingiram o cume de sua credibilidade; quando as empresas tornaram-se mais ágeis para lidar com os ciclos; quando os países emergentes ajustaram suas finanças, o mundo se vê obrigado a aprender novas lições face ao risco de recessão nos EUA e inflação mundo afora.
Os países também estão sujeitos a esses ciclos de crise, reforma, sucesso e complacência. Há casos patológicos em que os bons ventos levaram ao retrocesso político-institucional. A tese da "maldição das commodities" é exatamente que o dinheiro fácil do aumento dos preços termina por minar as instituições e a gestão pública.
Em meio a um aumento extraordinário dos preços do petróleo, há vários países com enormes jazidas cuja produção vem caindo por falta de investimentos porque os retornos da exportação foram consumidos com iniciativas populistas. Outros países vêm utilizando as receitas de exportação de commodities para instituir políticas de subsídios que substituem as melhores práticas fiscais e monetárias.
A longevidade do boom das commodities desafia qualquer medida de convicção. Há razões para supor que os preços podem aumentar ou, pelo menos se manterem elevados por um bom tempo. Assim como se a recessão americana se espalhar pelo mundo, eles podem cair mais adiante ainda esse ano.
Seja lá como for, no Brasil, chegará o dia em que nos perguntaremos se usamos da melhor forma a atual fase de vacas gordas. Diferentemente de outros países que não aproveitaram a oportunidade, a resposta aqui não é óbvia. Por um lado, o governo Lula foi uma surpresa extraordinária pela prudência nas áreas fiscal e monetária. Não fosse assim, a economia não estaria crescendo 5% com inflação na meta.
Dito isso, o fato é que a economia está no limite de sua capacidade, os 5% não são sustentáveis e o sonho da convergência do juro real para o padrão internacional foi adiado sine die. O BC irá elevar os juros nos próximos meses para evitar que o Brasil se iguale a outros países cuja inflação fugiu totalmente da meta. Só para ter em mente, na Turquia e no Chile, a inflação está 5 pontos acima da meta, e os preços estão subindo 8,5% na China e 13% na Rússia.
E aqui vem, então, a outra parte da resposta à pergunta sobre o Brasil: o esforço do governo para aumentar a taxa de investimento não foi bem-sucedido. O investimento como porcentagem do PIB manteve-se praticamente inalterado em relação ao ano de 2001, quando da crise de energia. Ou seja, os anos de ouro da economia mundial não reverteram em aumento da capacidade produtiva no país.
Iludidos com a preservação do superávit primário, analistas como eu viram no governo Lula uma alternativa ao velho populismo de esquerda latino-americano. Mas por trás do superávit se escondia a ausência de qualquer reforma relevante e um enorme aumento da arrecadação tributária inteiramente revertida de gastos com consumo e transferências. O Brasil, induzido pelo governo, consumiu boa parte das vacas gordas.
E nesse ambiente em que o consumo e a popularidade do presidente estão em alta, um governo que, pela sua tradição acadêmica e ideológica, se envergonhará de ser lembrado pelo câmbio apreciado e os juros altos, no lugar de fazer uma política fiscal anti-cíclica resolveu mostrar a sua verdadeira visão do mundo com o fundo soberano e a enésima encarnação da política industrial.
Tudo indica que o boom de commodities seguirá o roteiro dos ciclos de sucesso e complacência do Brasil e da América Latina: foi privilegiado o consumo e a política fiscal pró-cíclica, sem melhora relevante do patamar de crescimento sustentável. |
|
 |
 |
 |
 |
| |
 |
|
 |
 |
 |
 |
|
|