Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
           
  

Correio Braziliense
Ameaça à revolução
Da redação - Nenhuma

A política anunciada pelo presidente norte-americano, Barack Obama, de reduzir a dependência do petróleo e investir US$ 15 bilhões em energias alternativas nos próximos três anos deve ter impacto na Revolução Bolivariana empreendida na Venezuela, que exporta quase a metade de sua produção para os Estados Unidos. Segundo a Administração de Informação de Energia americana, a exportação de petróleo venezuelano para os EUA caiu 12,7% entre dezembro de 2007 e dezembro de 2008.

Para os EUA, a Venezuela é o quarto fornecedor de petróleo, depois do Canadá, Arábia Saudita e México. O governo americano tenta reduzir a dependência do produto importado e criticou ontem o presidente Hugo Chávez pela realização do referendo que permitirá as reeleições ilimitadas. Por outra parte, Caracas também luta para acabar com a dependência exagerada do mercado norte-americano. De acordo com o relatório da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), o país conseguiu aumentar as exportações aos países asiáticos em 73% em 2008.

Em 15 de março, os ministros da Economia dos países da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) vão se reunir em Viena, na Áustria, para decidir o futuro da produção e o impacto sobre os preços. A Venezuela já acenou com a disposição de aprovar novos cortes no fornecimento para aumentar o preço do barril, cotado ontem a US$ 33,93, muito abaixo dos US$ 60 previstos no orçamento nacional de 2009. Em janeiro, o país diminuiu a produção de 189 mil de barris diários, depois de uma decisão da Opep tomada em dezembro, na Argélia. Após os cortes, a produção diária ficou em 3 milhões de barris.

A Venezuela tem estabilidade para este ano, mas se esta situação se mantiver nos próximos anos, certamente também sofreria as consequências , disse na Assembleia Nacional o ministro de Finanças venezuelano, Alí Rodríguez Araque, antes de apresentar o relatório da gestão de 2008. Araque explicou que a Venezuela encontra-se estável agora devido aos lucros obtidos nos cinco anos anteriores e as medidas macroeconômicas que permitiram o acúmulo de recursos em diferentes fundos, como os binacionais um criado com a China e outro com o Irã.

Taxa de câmbio
O ministro ressaltou que o governo também não pretende mexer na taxa de câmbio do bolívar, a moeda nacional. Se decidíssemos desvalorizar a moeda, automaticamente as importações encareceriam, e o impacto inflacionário seria abrupto. A inflação anual está em cerca de 30%, a maior da América Latina, e o país é um grande importador de alimentos inclusive do Brasil. Durante uma entrevista ao canal de TV Televen, Araque destacou ainda que o Executivo pretende favorecer a economia produtiva social e prevê, para os próximos quatro anos, ampliar a área destinada à agricultura de 2,37 milhões de hectares a 4 milhões, com um investimento de mais de US$ 4 bilhões.

No entanto, para o analista financeiro venezuelano Pedro Urquiola, a diminuição do preço do barril também afetará a capacidade de importação das empresas. Muitas empresas serão afetadas por não trazer a tempo seus insumos, reposições, equipamentos e peças para a produção interna , disse. A Venezuela não é um país industrializado, mas quase monoprodutor de uma matéria-prima o petróleo, que sofreu uma queda infeliz, também pela redução da demanda mundial , destacou.

Para 2009, mais uma vez, o governo venezuelano tinha destinado recursos do petróleo para gastos sociais, com apoio direto às missões bolivarianas (leia o quadro nesta página) e à continuação do Plano de Implantação Petroleira, que inclui seis grandes projetos (Magna Reserva, Projeto Socialista-Orinoco, Delta Caribe, Refino, Infraestrutura e Integração). O dinheiro também deve financiar indiretamente outros mecanismos de assistência por meio da PDVSA, do Banco Central da Venezuela e do Fundo de Desenvolvimento Nacional (Fonden).


ORÇAMENTO ENXUGADO

Segundo um relatório da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), a empresa reduziu em 65,3% suas contribuições às missões bolivarianas. Confira as principais economias:

Missão Barrio Adentro
Prevê a construção de ambulatórios e serviços médicos em regiões pobres do país. Seu orçamento passou de US$ 1,362 bilhão em 2007 para US$ 114 milhões em 2008

Missão Vivienda y Hábitat
Projeto de construção de casas. Depois de receber US$ 546 milhões em 2007, reduziu em 2008 para US$ 155 milhões

Missão Mercal
Tem como objetivo o armazenamento de alimentos para revenda abaixo do preço de mercado. De US$ 269 milhões em 2007, a verba caiu para US$ 187 milhões em 2008

Missão Milagro
Um projeto em parceria com Cuba, para realizar cirurgias oftalmológicas em pessoas carentes. Conseguiu apenas US$ 7 milhões no ano passado. Quando o programa foi iniciado, em 2005, contava com cerca de US$ 165 milhões