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Quinta-feira, 6 de setembro de 2007 |
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| O Estado de S. Paulo |
| Governo brinca com a crise externa |
| Alberto Tamer |
Sim, é isso mesmo. A crise financeira ainda agita o mercado financeiro internacional e está fazendo um grande mal ao Brasil. Mas, como? Não fomos nós os primeiros a declarar que ela nos afetaria pouco, que o Brasil estava preparado com reservas de R$160 bilhões, dívida externa negativa e um sistema financeiro sólido? O que mudou?
Mudou que o governo Lula, convencido de que somos uma rocha no meio do oceano turbulento e de que a economia estava crescendo até 5%, simplesmente enlouqueceu. Passou a gastar como um doidivana, não em investimento, mas em pessoal. Tomado de uma euforia sem sentido, está autorizando a contratação de 56.348 servidores ao custo de R$ 3,4 bilhões, e isso sem contar os gastos com comissionamentos e a designação de mais 23 mil servidores a critério de ministérios e autarquias. E nem estamos falando dos milhares de ’comissionamentos’ aleatórios, e geralmente remunerados, nem na folha de pagamento das estatais.
Isso num país ainda pobre, onde o Estado se apropria de 36%, e até mais, da riqueza nacional e investe apenas 0,5% do PIB! Enquanto se gasta cada vez mais com máquina administrativa, a infra-estrutura deteriorada caminha para o caos. Só funciona o que foi privatizado, a telecomunicação. Primeiro foi o apagão aéreo, logo mais será o dos transportes e, se não chover, o energético. Ninguém duvida que, mesmo após iniciadas as obras do Madeira, haverá grandes atrasos, porque sempre faltou dinheiro. Há usinas, como Angra 3, esperando há 32 anos, e as obras de Angra 2 esperaram 25 anos.
É A FESTA! SOMOS GRANDES!
Mas, o que tem isso a ver com a crise financeira externa? Tudo. É que se criou aqui o falso clima de euforia, como se nada nos atingisse. É aquele clima de euforia insensata, ’ somos os maiores’, e agora o presidente Lula levanta o falso tema do ’Brasil potência’, tão querido dos militares e que nos levou a um endividamento externo de US$ 60 bilhões entre os choques do petróleo de 1973 e 1979 e a insolvência financeira externa de 1982, o qual só agora começamos a superar, ajudados pelo cenário externo de crescimento.
Para o governo Lula, o furacão lá fora já passou e saímos imunes. Portanto, é hora de gastar. Nada mais falso. A crise externa ainda não passou, está longe disso. Ainda ontem, dois indicadores econômicos negativos derrubaram as bolsas.
Ainda estamos no meio do furacão sem saber quanto vai durar. Festa, só aqui, em clima de carnaval. Não, não estamos imunes nem desta ou de outras crises.
E, assim, não podemos sair por aí gastando à toa e aumentando impostos não para investir, mas para sustentar a máquina administrativa, ano a ano mais dispendiosa. E agora vai custar ainda mais. Sem problema, a carga tributária de mais de 37% do PIB vai aumentar em 2008. Nós, os que pagamos impostos sem retorno, somos ’ricos’, aceitamos tudo.
É a continuação da estulta política de sangrar os que produzem, o que já dura 13 anos, para financiar um setor oficial declaradamente incompetente. Até hoje, o Congresso nunca rejeitou aumento de impostos.
Mais ainda, o nosso sistema tributário é perverso, porque incide mais sobre os empregados, que têm seus impostos tributados na fonte, descontados ao receber o salário. É perverso também para as empresas, que repassam os enormes custos das folhas para a produção e, conseqüentemente, para o preço final. No caso das exportações, isso encarece o preço e reduz a competitividade num mercado cada vez mais difícil. E tudo sobra para um governo que investe, acreditem, pois é oficial, apenas 0,5% do PIB, sim, só 0,5%! Em saúde, saneamento e segurança é essa modorra que está aí, estampada nas páginas dos jornais...
Agora, o presidente apregoa que vamos crescer por dez anos, como se isso fosse possível sem investir na reconstrução da infra-estrutura corroída em que um caminhoneiro, como relatou o Estado na edição de terça-feira, gasta seis horas para percorrer 270 quilômetros até o porto saturado de Santos, deficiência de transporte que custa US$ 40 bilhões por ano. É o apagão logístico que torna um sonho esses dez anos contínuos de crescimento.
Essa política desarrazoada vai matar o crescimento, afirma ao Estado o professor Rogério Werneck.
SOMOS VULNERÁVEIS, SIM
Mas não estamos nos livrando bem dessa crise externa? Sim, mas só por agora, porque ela não se disseminou para a economia. Em curto prazo, ela nos afetará e muito. E isso virá pela porta do comércio exterior, que, falem o que quiserem, é o que nos alimenta, principalmente pelas exportações de commodities agrícolas e minerais.
Os ministros, em Brasília, encantados, dizem que temos mais parceiros além dos EUA e a Europa e que o mundo depende menos da economia americana. Ledo engano. Essas duas economias representam mais de 50% das nossas exportações. Pesamos só 1% da importações americanas, sim, mas, se eles desacelerarem - e a previsão agora é de um crescimento de apenas 1,8% -, importarão menos da Europa e da China. E, conseqüentemente, nossas exportações para esses países também regredirão. São vasos comunicantes numa rede na qual somos apenas uma parte muito pequena, somente 1,2% do comércio mundial.
Por isso, cantar glórias, quando todo mundo se inquieta, se aproxima um pouco da irresponsabilidade. Temos de investir para gerar empregos, renda, e não gastar de forma perdulária.
*E-mail: at@attglobal.net |
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